• Conversando sobre o luto – parte 2

    by  • 28 de May de 2015 • PUBLICAÇÕES • 0 Comments

    O Movimento Não Foi Acidente criou desde 2012 um grupo de apoio à pessoa em luto para atender as pessoas que perderam entes queridos. Na semana passada demos início ao “conservando sobre o luto”,  faremos uma publicação por semana com informações sobre o luto, baseados em artigos científicos, pesquisas e livros de teóricos sobre o assunto, sempre em linguagem para o público em geral. Esperamos com isso, levar a todos esclarecimentos sobre esse processo tão difícil que, todos nós, em algum momento iremos passar.

    Conversando sobre o luto – parte 2

    por Rosmary Mariano*

    Luto é uma transição biopsicossocial, ou seja, uma trajetória que engloba a pessoa como um todo, é uma visão integral da pessoa, ou seja, abrange o físico, o psicológico e o meio social em que a pessoa está inserida.

    Ao perdermos uma pessoa querida, o nosso mundo presumido é abalado, entenda como mundo presumido o mundo que conquistamos, o mundo que conhecemos, o que sabemos ou pensamos saber, nossa interpretação do passado, nossa visão de futuro. Ao perder um ente querido, o mundo presumido muda e um novo mundo presumido será construído a partir de então (Parkes, 1998).

    No Conversando sobre o luto – parte 1” falamos sobre as famosas 5 fases do luto de Elizabeth Kuber-Ross e o mal entendido que muitos criaram sobre esse conceito. Falamos sobre Bowlby e Parkes e as 4 fases/etapas que não são lineares, mas cíclicas, sobre essas etapas, devido a identificação de muitas pessoas com o que foi escrito, em outro momento, iremos aprofundar um pouco mais. Também citamose Worden. É muito interessante a abordagem de Worden porque ele vê o enlutado como uma pessoa que precisa ser ativa neste processo, daí as tarefas propostas por ele e não, passiva, forma como ele encara as fases/etapas, Worden será abordado oportunamente. Na conversa de hoje, iremos abordar o Modelo do Processo Dual do Luto de Stroebe e Schut (1999) e acreditamos que, neste modelo, a maioria das pessoas conseguirá se identificar.

    O Modelo do Processo Dual do Luto enfatiza o enfrentamento para a compreensão do processo de luto. O processo de adaptação e construção de significado ocorre a partir do:
    – Enfrentamento orientado para a perda, 
    – Enfrentamento orientado para a restauração e
    – A oscilação entre um e outro.

    É um processo cognitivo de enfrentamento da perda que consiste em construir estratégias e estilos de gerenciamento da situação de luto. Para os autores, se há o enfrentamento, os danos à saúde física e mental são reduzidos, esse é um enfrentamento que acontece no dia a dia e inclui todas as tarefas de vida da pessoa em luto, seja assistir televisão, ler um livro, conversar com amigos.

    Entenda como enfrentamento (tradução do original, em inglês, “coping”) o conjunto de estratégias para lidar com algo que é percebido pelo indivíduo como uma ameaça iminente, como uma sobrecarga às suas capacidades cognitivas e comportamentais do momento (Folkman, Lazarus, Gruen & DeLonguis, 1986). As estratégias de enfrentamento ajudam a pessoa a adaptar-se a situação vivenciada e estas respostas administram a crise para tolera-la e diminuir o estresse ocasionado.

    O enfrentamento orientado para a perda enfoca a busca pela pessoa perdida e está centrada nos aspectos relacionados a pessoa falecida: laços afetivos, negação e evitação da realidade da morte, bem como, a aceitação da realidade da perda, elaboração do luto, rememorar, ver fotografias, falar sobre o ente querido morto, anseio por sua proximidade. Também podemos incluir nesse enfrentamento a ruminação, ou seja, sobre como seria a vida se ele não tivesse morrido e as circunstâncias e eventos diante da morte. Engloba a saudade e também como ele reagiria se estivesse vivo em determinado evento. Chorar pela morte também está no enfrentamento voltado para a perda.

    O enfrentamento orientado para a restauração refere-se aos ajustamentos recorrentes à perda e que constituem fontes de estresse com as quais as pessoas em situação de luto precisa lidar, como responder às mudanças de reorganização da vida após a morte do ente querido, também, quando o enlutado precisa assumir as tarefas que eram realizadas pela pessoa que morreu. Lidar com os arranjos da vida sem o ser amado. Retomar as próprias tarefas do dia a dia, fazer coisas novas, se distrair (se divertir não é trair o morto, é parte da vida, o enlutado tem o direito de sorrir). No enfrentamento voltado para a restauração a pessoa em luto assiste a um filme, sai com amigos, passeia, viaja, faz contato social de uma forma geral. No enfrentamento voltado para a restauração, a pessoa enlutada desenvolve uma nova identidade, a esposa que perdeu o marido, agora é viúva. E quem perdeu o filho? Pai órfão de filho? Mãe órfã de filho? Falta-nos uma palavra para denominar essa identidade, mas palavras são apenas palavras…

    A oscilação é a alternância entre um e outro. Em um momento a pessoa está voltada para a perda e em outro ela está voltada a restauração. A oscilação é um processo necessário. Quem fica apenas na orientação voltada para a perda ou apenas na orientação voltada para a restauração não está elaborando um luto saudável.

    A pessoa que permanece excessivamente voltada para a perda, tem mais dificuldade na elaboração do luto. Já quem fica excessivamente voltado para a restauração, não entra em contato com a perda, evitando sentimentos voltados à perda, acreditam que entrar em contato com esses sentimentos seja insuportável.

    A oscilação é saudável, ela é necessária para que possa haver uma reorganização diante da nova realidade, a construção de um novo mundo presumido, abalado com a perda do ente querido.

    No Modelo Dual do luto, ao aceitar a realidade da perda, a pessoa aceita que o seu mundo foi transformado. O enlutado experimenta a dor da perda e também tem tempo livre para outras atividades que necessitam ser realizadas. O enlutado ajusta a vida sem o seu ente querido falecido e repetimos, isso não é trair a memória do morto, não é esquecê-lo, é ajustar a vida sem a presença do ente querido que morreu. Este modelo é diferente de todas as outras teorias do luto porque coloca as estratégias de enfrentamento como indicadores de bem estar e saúde. Um modelo que deixa claro que não é somente o trabalho do luto (orientação voltada para a perda) que precisa ser feito, mas também ser capaz de afastar-se deste trabalho (orientação voltada ao enfrentamento).

    Como já dissemos antes, o luto é um sentimento individual, não existe um tempo para passar por ele. Elaborar um luto não significa esquecer o ente querido, ter um luto elaborado significa que mesmo a perda sendo para sempre, a pessoa consegue retomar as suas atividades cotidianas, não será mais a mesma pessoa, ela precisa se reestruturar com o novo mundo que tem agora. Assim, ao elaborar o luto, a vida fica mais voltada a restauração, mas não deixará de vivenciar a perda também. As oscilações serão menores, mas ainda acontecerão.

    Referências:
    Folkman, S., Lazarus, R. S., Gruen, R. J., & DeLonguis, A. (1986). Appraisal, coping, health status, and psychological symptoms. Journal of Personality and Social Psychology, 50 (3), 571-579.
    Parkes, C.M. Luto: estudos sobre perdas na vida adulta. São Paulo: Summus, 1998
    Stroebe, M; Schut H. The dual process modelo f coping with bereavement: rationale and description. Death studies, v. 23, p. 197-224, 1999
    Stroebe, M. S et at. Bevereamente research: contemporary perspectives. In Handbook of bereavement researcj and practice: advances in theory na intervention, 2008, p. 3-25

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    *Rosmary Mariano é pedagoga e está se especializando em “Luto – Teoria, Intervenção e Pesquisa” pelo Instituto de Psicologia Quatro Estações

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    Pedagoga Especializada em Surdez e Psicoeducadora especializada em Teoria, Pesquisa e Intervenção em Luto.

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