• Conversando sobre o luto – parte 3

    by  • 4 de June de 2015 • PUBLICAÇÕES • 0 Comments

    “Amor e luto, vínculo e perda, são duas faces da mesma moeda: não se pode ter uma sem ter a outra”. Colin Murray Parkes. E foi partindo deste pressuposto que, o Movimento Não Foi Acidente criou desde 2012 um grupo de apoio à pessoa em luto para atender as pessoas que perderam entes queridos. Em maio demos início ao “conservando sobre o luto”,  faremos uma publicação por semana com informações sobre o luto, baseados em artigos científicos, pesquisas e livros de teóricos sobre o assunto, sempre em linguagem para o público em geral. Esperamos com isso, levar a todos esclarecimentos sobre esse processo tão difícil que, todos nós, em algum momento iremos passar.

     

     Conversando sobre o luto – parte 3

    por Rosmary Mariano*

    Elaborar o luto é tornar a pessoa capaz de lidar com a realidade da perda e se reorganizar diante da nova realidade.

    O processo de luto é um processo de adaptação à perda.

    No “Conversando sobre o luto – parte 1” comentamos sobre as famosas 5 fases do luto de Elizabeth Kuber-Ross e o mal entendido que muitos criaram sobre esse conceito. Falamos sobre Bowlby e Parkes e as 4 fases/etapas que não são lineares, mas cíclicas, sobre essas etapas, devido a identificação de muitas pessoas com o que foi escrito, em outro momento, iremos aprofundar um pouco mais.

    No “Conversando sobre o luto – parte 2” enfocamos o Modelo do Processo Dual do Luto de Stroebe e Schut (1999). Com o enfrentamento orientado para a perda, o enfrentamento orientado para a restauração e a oscilação entre um e outro, este modelo engloba todas as atividades do cotidiano, acreditamos ser o mais completo, mesmo assim, vamos continuar conversando sobre outras teorias, hoje conversaremos sobre Worden.

    Para Worden, bem como para Parkes e Bowlby, a pessoa em luto passa por sentimentos e reações semelhantes, algumas pessoas passam por algumas reações e outras não, as pessoas têm processos pessoais de elaboração, mas muitos pensamentos e sentimentos podem ser parecidos. Parkes e Bowlby falam em fases/etapas, lembramos que elas não são lineares. Worden fala em tarefas, para ele, tarefa é algo ativo, o sujeito age diante de seu sofrimento, enquanto para ele, as fases/etapas são passivas, a pessoa vivencia.

    “(…) A pessoa enlutada vê o conceito de fases como algo que deve ser atravessado, enquanto a abordagem de tarefas dá ao enlutado algum sentido de alavanca e esperança de que haja algo que ele possa efetivamente fazer” (Worden, 1998).

    Entretanto, as características das tarefas podem ser comparadas as fases propostas por Bowlby, mas as fases/etapas NÃO correspondem a uma tarefa. Para Worden a tarefa do luto não é linear, não acontece uma em seguida da outra. Pode acontecer alternadamente, ir e voltar. Pode passar por uma e concluir e não concluir a subsequente, mas concluir a seguinte.

    Para Worden (1998), o trabalho de luto se completa quando a pessoa desempenhou as seguintes tarefas:

    I.              Aceitar a realidade da perda;
    II.            Elaborar a dor da perda;
    III.           Ajustar-se ao ambiente onde está faltando a pessoa que morreu;
    IV.           Reposicionar em termos emocionais a pessoa que faleceu e continuar a vida.

    Porém, o que quer dizer cada uma destas tarefas de forma que possamos entender mais claramente e não apenas ler como um amontoado de palavras?

     

    I. Aceitar a realidade da perda

    Mesmo que a morte seja algo esperado e a pessoa já estivesse doente, quando a pessoa morre, há a sensação de que a morte não aconteceu. Aceitar a realidade da perda leva tempo. Não é só a aceitação intelectual, mas a emocional também.  Essa tarefa é enfrentar a realidade da perda. A pessoa morreu e não voltará, ao menos não voltará de carne e osso nesta vida. Neste momento, como Bowlby e Parkes já escreveram, existe o comportamento de busca, por exemplo, quando uma pessoa em luto chama pela pessoa que morreu e muitas vezes a identificam em outras pessoas pelas ruas.

    Se algumas pessoas acreditam na realidade da morte, outros, não acreditam e negam. Ficam assim, paradas nessa primeira tarefa. A negação pode variar em graus, ao ponto de uma pessoa ficar com o corpo do falecido por dias sem fazer a notificação da morte.

    Mumificação é o termo usado por Geoffrey Gorer para definir os pertences prontos para uso, há quem mantenha os pertences da pessoa morta pronta para o uso, como se ela fosse chegar e usar a qualquer instante. Manter o quarto do filho morto por algum tempo é comum, mas ao permanecer por muitos anos, torna-se uma forma de negação da realidade da morte. Há quem veja o filho morto incorporado em outro filho, isso pode até diminuir a intensidade da dor, mesmo assim, não será satisfatório porque não é a pessoa que morreu que está ali e, ainda é uma negação da realidade da morte.

    Há quem negue o significado da perda, com justificativas pífias como, “não éramos tão próximos”, “eu não sinto tanta falta dele”, se há quem guarde tudo, há também quem elimine tudo, roupas, pertences, fotografias na tentativa de minimizar a perda. Como se a ausência de objetos pudesse proteger a pessoa da perda vivida.

    Há também os esquecimentos seletivos, quando a pessoa bloqueia de sua mente o que vivenciou com o morto.

    Aceitar a realidade da perda leva tempo. Não é só a aceitação intelectual, mas a emocional também. Mesmo que intelectualmente ciente de que a perda pode acontecer, isso principalmente em casos de doenças, mas emocionalmente, a aceitação da realidade da perda não é imediata.

    Não seria mais fácil acreditar que a pessoa está viajando? Não seria mais fácil acreditar que ela ainda está no hospital? No entanto, essa crença cairá quando você quiser contar uma novidade para a pessoa e do outro lado do telefone ela não poder mais estar!

    “Ele está morto e eu não mais o terei de carne e osso ao meu lado novamente” é algo muito difícil de admitir.

    Para ajudar aceitar a realidade da perda, os rituais de despedida são muito valiosos.

    E sobre os sonhos com a pessoa perdida, Worden escreveu:

    “Pode ser que sonhar que a pessoa que faleceu está viva não seja simplesmente um desejo de preenchimento, mas uma forma de a mente validar a realidade da morte, por meio do acentuado contraste que ocorre quando a pessoa acorda de um sonho desses.”

     

    II. Elaborar a dor da perda

    A expressão alemã Schmerz é adequada para ser utilizada quando se fala de dor do luto porque sua definição mais ampla inclui a dor física que muitas pessoas sentem e a dor emocional e comportamental associada à perda. A dor do luto precisa ser reconhecida e elaborada, se assim não for, a dor se manifestará por meio de alguns sintomas, ou seja, alteração na saúde física e emocional.

    O luto é muito pessoal, mas quando existe laços de amor, afeto ou amizade com a pessoa que morreu, certamente haverá dor.

    Infelizmente, a sociedade não está preparada para ver as pessoas sofrendo e assim, querem que a dor do outro passe logo e falam pérolas que deveriam ser caladas, tais como, “você não precisa ficar de luto”.

    Existe a negação também em elaborar a dor, ou seja, não sentir a dor. A negação da dor faz com que a Tarefa II deixe de acontecer, não podendo então, elaborar o luto. Cabe ressaltar que, elaborar o luto não é esquecer o ente querido, mas ajustar-se a vida sem a presença física da pessoa amada que morreu. Evitar os pensamentos dolorosos é evitar a elaboração da dor da perda. Estimular apenas os pensamentos prazerosos também é evitar a elaboração da dor da perda. Se pensarmos no Modelo do Processo Dual do Luto, a pessoa que está negando vivenciar essa tarefa está com a orientação voltada apenas para a restauração (falamos sobre o Modelo do Processo Dual do Luto no “Conversando sobre o luto – parte 2”).

    Outra forma de não elaborar a dor da perda é idealizar o morto e só se lembrar das coisas boas dele, evitar lembranças, fazer uso de drogas lícitas ou ilícitas são formas da pessoa não passar pela Tarefa II.

     

    III. Ajustar-se ao ambiente onde está faltando à pessoa que morreu

    Ajustar-se ao ambiente onde está faltando à pessoa que morreu significa coisas diferentes para diferentes pessoas e não podemos esquecer que o processo do luto é muito pessoal. Dependerá de como era a relação com a pessoa que morreu e dos papéis desempenhados por ela quando viva.

    Por exemplo, quando um marido morre, além do companheiro, a mulher pode perder o provedor da casa, a pessoa que cuidava dos assuntos financeiros, tais como fazer compras de supermercados, comparecer às reuniões escolares dos filhos e, com a perda do marido, ela precisará NÃO assumir o lugar dele, mas assumir os papéis por ele desempenhados. Se ela falhar na tentativa de assumir esses papéis poderá ter problemas de baixa autoestima, sentir-se incapaz e inadequada. Com o tempo, geralmente, a pessoa consegue fazer adaptações e as imagens negativas cedem lugar a imagens positivas.

    A rede de apoio é muito importante neste momento. Há pessoas que ao perder o marido irão precisar ir ao banco e usar um cartão eletrônico, por exemplo, pela primeira vez  e ter com quem contar nessa hora, fará a diferença.

    E o sentido da pessoa no mundo? Uma pessoa em situação de luto poderá se sentir sem direção. As crenças anteriores agora não farão mais sentido e, não são apenas as crenças em relação a religiosidade, mas por exemplo, uma pessoa que acredita na bondade da humanidade e perde um ente querido em uma morte estúpida como um assassinato, questionará o que sempre acreditou. Suas crenças e seus valores poderão mudar diante da perda de um ente querido. Ao longo do tempo, novas crenças podem ser adotadas e as velhas podem ser validadas ou transformadas.

    E como dar um sentido para a perda? A pessoa busca um significado para a perda e ao mesmo tempo, sua história muda para dar sentido a própria vida.

    A morte de uma pessoa provoca mudanças nos ambientes onde a convivência com ela acontecia, como o “lugar” do morto em casa, no trabalho, na escola, no lazer, este lugar permanecerá “vazio”. Os que ficaram precisam se adaptar ao ambiente que a perda gerou.

    O que impede a Tarefa III de ser concluída? O impedimento é não se adaptar a perda. Ao perder um ente querido é necessário que habilidades sejam desenvolvidas para adaptar-se ao mundo que ficou. Para as pessoas que conviviam mais, o ajuste será mais acentuado. Quando a pessoa em luto não cumpre esta tarefa adequadamente, enfrentará dificuldade ou impossibilidade de adaptação à perda. Nesse caso, é possível que ela tenha dificuldades para desenvolver novas habilidades e construir novas relações.

    Quando uma pessoa não quer adaptar-se ao mundo que ficou, ela trabalha contra si mesma, promove o seu próprio desamparo quando não desenvolvem habilidades das quais necessitam ou se “retirando do mundo” e não enfrentando as exigências do ambiente.

    Ao perdermos uma pessoa querida, o nosso mundo presumido é abalado, entenda como mundo presumido o mundo que conquistamos, o mundo que conhecemos, o que sabemos ou pensamos saber, nossa interpretação do passado, nossa visão de futuro. Ao perder um ente querido, o mundo presumido muda e um novo mundo presumido será construído a partir de então (Parkes, 1998)

     

    IV. Reposicionar em termos emocionais a pessoa que faleceu e continuar a vida

    Reposicionar não é esquecer, mas encontrar um lugar adequado em sua vida emocional que permita ao enlutado ter espaço para outras pessoas e perceber que existem outras pessoas ao redor. Amar outras pessoas não é deixar de amar quem morreu.

    Reposicionar a pessoa significa não esquecer o ente querido que morreu, mas permitir que, mesmo com a morte de uma pessoa amada, o enlutado continue a viver bem no mundo. Para os pais que perderam seus filhos, Worden esclarece que, reposicionar é continuar em contato com os pensamentos e lembranças associados ao filho e fazendo isso de forma que, permita a eles continuar as suas vidas, apesar da perda do ente querido e assim, continuar a reinvestir na vida.

    Ao reposicionar, a pessoa que morreu ganha um novo papel na vida da pessoa que ficou. Podemos associar a reposição ao que Bowlby e Parkes falaram em reorganização, o momento em que há a percepção que mesmo e apesar da morte do ente querido, a vida irá continuar, com novos sonhos e realizações. Novos objetivos de vida!

    Se pensarmos no Modelo do Processo Dual do luto, as oscilações, bem como o enfrentamento orientado para a restauração pode estar presente na Tarefa IV de Worden.

    Para Worden, a Tarefa IV está terminada quando se consegue falar no morto no dia a dia, de uma forma mais tranquila, sem que sentimentos intensos sejam despertados, mas agora, ao falar, a pessoa não cai em desespero, consegue discorrer sobre a pessoa morta com saudade, mas serenidade.

    Como já dissemos antes, o luto é um sentimento individual, não existe um tempo para passar por ele. Elaborar um luto não significa esquecer o ente querido, ter um luto elaborado significa que mesmo a perda sendo para sempre, a pessoa consegue retomar as suas atividades cotidianas, não será mais a mesma pessoa, ela precisa se reestruturar com o novo mundo que tem agora. Assim, ao elaborar o luto, a vida fica mais voltada a restauração, mas não deixará de vivenciar a perda também. As oscilações serão menores, mas ainda acontecerão.

    Referências:

    GORER, G.D. (1965). Death, grief and mourning. New Yourk. Doubleday

    PARKES, C.M. – Luto – Estudos sobre a perda  na vida adulta, São Paulo, Summus Editorial, 1998.

    WORDEN, J.W. Terapia do Luto. Um Manuel para o profissional de saúde mental. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998

     

    Para participar de nosso grupo de apoio virtual no Facebook, acesse: https://www.facebook.com/groups/acalmandocoracoes/

     

    *Rosmary Mariano é pedagoga e está se especializando em “Luto – Teoria, Intervenção e Pesquisa” pelo Instituto de Psicologia Quatro Estações

     

    About

    Pedagoga Especializada em Surdez e Psicoeducadora especializada em Teoria, Pesquisa e Intervenção em Luto.

    Leave a Reply

    Your email address will not be published.

    This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.