• Invasões Bárbaras

    by  • 14 de July de 2014 • AGENDA • 0 Comments

    Invasão bárbara foi quando um motorista que hoje diz ter tido um mal súbito, dirigiu por 10 quilômetros na contramão de uma rodovia. Invasão bárbara foi quando um jovem que no dia seguinte iria levar o pai ao aeroporto, saiu para jantar, por decidir que tomaria vinho naquela noite fria de julho, resolveu ir a pé e, retornando para casa, foi atropelado na calçada. Invasão bárbara foi quando um motorista dirigia acima da velocidade fazendo “um pega” e colidiu em um  veículo estacionado em uma hamburgueria. Invasão bárbara foi quando duas mulheres, mãe e filha saiam de um shopping e foram atropeladas e mortas em uma calçada!

    Na década passada, eu tomava café com colegas quando li uma manchete em um jornal no qual estava escrito que, motorista após voltar de uma formatura, dirigiu alguns quilômetros na contramão em uma rodovia, bateu de frente com um caminhão e morreu. Olhei para uma colega grávida que sentava próxima a mim e pensei, imagine se colidisse com o carro de uma pessoa como ela, que não tem nada com a fúria que ele vivia, ela poderia morrer. Senti tristeza por saber a que ponto chegou a humanidade. Há dois anos, em 21 de abril de 2012, Guilherme Meucci Soares agiu de forma semelhante, dirigiu na contramão, por quase 10 quilômetros, na Rodovia Washington Luiz, município de São José do Rio Preto – SP, na altura do km 432, colidiu com o veículo de Rodrigo. Nas audiências que têm acontecido referente ao caso, alega que teve um mal súbito, ele sobreviveu, mas tirou a vida de Rodrigo Fernandes Pereira, que deixou 2 filhos pequenos e esposa. Agora viúva, Adriana Pagani é mãe de dois meninos órfãos de pai. Como explicar para duas crianças que o pai morreu?

    Era 23 de julho de 2011, Vitor Gurman saiu para jantar com amigos, decidiu sair a pé, aprendera que álcool e direção não combinam, retornando para a casa e caminhando na calçada, foi atropelado por Gabriella Pereira Guerrero embriagada e em velocidade insanamente acima do permitido para o local. Ele não levou o pai ao aeroporto, o pai sequer viajou. Vitor morreu cinco dias depois, em 28 de julho de 2011. Há 2 semanas eu estava em um parque e ouvi de uma mulher que mora próxima ao local do atropelamento: “O barulho foi ensurdecedor, eu não o conhecia, mas me emociono ao me lembrar, a foto dele foi grafitada em um muro perto de casa”. Vitor, 3 anos após a sua morte, ainda está vivo na lembrança de quem sequer o conheceu. Por diversas vezes, nos mais diferentes lugares, encontro pessoas que cruzaram de alguma forma o caminho com ele.

    Era 28 de julho de 2009, Alex Hausch saiu para comer um lanche com um amigo e futuro sócio. Eles estavam em fase final para a execução de um projeto na área médica. Após o lanche, já estavam dentro do carro estacionado na hamburgueria,  quando um veículo em alta velocidade, que estava em “um pega, veio desgovernado na direção deles, o amigo que sobreviveu com sequelas conta, “foi um clarão, o grito do amigo e muita dor”. Alex havia dito aos pais que não fechassem a porta do apartamento, sairia sem as chaves, logo voltaria. Nunca mais retornou. Rafael Muchon matou Alex em um crime de trânsito, foi condenado a cumprir serviços comunitários, mas quando saiu a sentença, não morava mais no Brasil.

    Era 17 de setembro de 2011, dias antes, Bruna havia pedido exoneração de um emprego público promissor, iria viajar para a África do Sul como voluntária. Junto com a mãe Miriam Baltresca foi a um shopping em São Paulo, viram os preços das passagens, pegaram um cinema, compraram um livro de presente para Adriana, prima de Bruna que faria aniversário. Saindo do shopping, Marcos Alexandre Martins, embriagado e em altíssima velocidade, as atropelou na calçada. Miriam morreu no local e Bruna a caminho do hospital. Na geladeira da casa dos Baltresca havia um bolo, era para a filha de Manuel Fernandes que faria aniversário naquela semana. Dois dias depois, a família se reuniu para comer o bolo. “Ainda hoje, fica difícil comemorar o aniversário da Adriana”, diz Manuel. Miriam deixou um filho, ele é Rafael Baltresca, diante da dor e da perplexidade por perder mãe e irmã em um crime de trânsito, criou o Movimento Não Foi Acidente.

    Invasões bárbaras era o que o Império Romano sofria para dentro de seus territórios quando invasores tomavam suas terras.

    Invasões bárbaras é o que estamos vivenciando ao vermos nossos entes queridos perderem suas vidas devido a violência viária, quando irresponsáveis ao volante fazem de seus carros armas poderosas e perigosas.

    Quase 3 anos após a criação do Movimento, perguntamos: Até quando?

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    Pedagoga Especializada em Surdez e Psicoeducadora especializada em Teoria, Pesquisa e Intervenção em Luto.

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